Paulinho Faria: a voz que ajudou a transformar a toada de Parintins

Muito antes dos holofotes, das transmissões nacionais e do Bumbódromo lotado, uma voz já ecoava pelas ruas de Parintins anunciando o futuro. Essa voz era a de Paulinho Faria.

A história do Festival Folclórico de Parintins é feita de artistas, sonhadores e apaixonados que dedicaram suas vidas para transformar uma manifestação popular do interior da Amazônia em um dos maiores espetáculos culturais do planeta. Entre esses personagens, poucos ocupam um lugar tão especial quanto Paulinho Faria, o eterno “Garotinho de Ouro” do Boi Garantido.

Paulinho Faria (à esquerda)

Uma das lembranças mais marcantes compartilhadas por Paulinho remete aos anos 1970, quando o festival ainda era realizado em estruturas simples e a rivalidade entre Caprichoso e Garantido era alimentada muito mais pela paixão popular do que pelos recursos financeiros. Naquele período, ele trabalhava no rádio e teve acesso a um disco contendo a toada “Boi Garantido”, gravada pelo artista amazonense Chico da Silva.

O que poderia ser apenas mais uma gravação tornou-se um marco na história cultural de Parintins.

Paulinho saiu em um carro da família pelas ruas da cidade

Empolgado com a novidade, Paulinho decidiu percorrer as ruas da cidade divulgando a música e anunciando aos moradores que o Garantido era o primeiro boi da ilha a possuir uma toada gravada em disco. Acendendo a rivalidade, o gesto simples carregava uma enorme dimensão simbólica. Pela primeira vez, a voz do boi ultrapassava os limites das apresentações e passava a viajar por meio da música registrada.

Naquele momento, talvez nem ele imaginasse que estava ajudando a inaugurar uma nova era para o festival.

As toadas, que antes pertenciam quase exclusivamente ao terreiro e às apresentações folclóricas, começaram a ganhar vida própria. Passaram a tocar nas rádios, a ser cantadas nas casas, nos encontros familiares e nas embarcações que cruzavam o rio Amazonas. O boi deixava de existir apenas durante os dias da festa e passava a viver durante o ano inteiro no coração do povo.

Paulinho testemunhou de perto a transformação de Parintins. Viu a disputa sair dos currais tradicionais e alcançar projeção estadual, nacional e internacional. Assistiu ao crescimento dos espetáculos, ao surgimento dos grandes artistas, ao fortalecimento dos itens individuais e à profissionalização dos bois-bumbás.

Mas ele não foi apenas testemunha.

Foi protagonista.

Paulinho se apresentando no Curral do Boi Garantido

Durante mais de duas décadas defendendo o item Apresentador do Boi Garantido, Paulinho Faria ajudou a criar a linguagem que hoje define o festival. Seu estilo vibrante, sua capacidade de emocionar multidões e sua conexão direta com a galera vermelha e branca fizeram dele uma referência para gerações de apresentadores.

Quando Paulinho entrava na arena, não era apenas um apresentador anunciando um espetáculo. Era um narrador de sonhos. Sua voz conduzia a torcida por uma jornada de emoções, exaltando a cultura amazônica, os povos da floresta, os mitos, as lendas e a força do boi da Baixa do São José.

Ao lado de nomes históricos como David Assayag, Arlindo Júnior, Tony Medeiros e Klinger Araújo, integrou uma geração considerada por muitos como a “era de ouro” do Festival de Parintins, período responsável por consolidar o evento como uma potência cultural da Amazônia.

David Assayag, Paulinho Faria, Arlindo Júnior e Klinger Araújo

Sua trajetória se confunde com a própria evolução do festival. Quando começou, a disputa ainda carregava características de uma festa comunitária. Ao longo dos anos, viu nascer o Bumbódromo, inaugurado em 1988, palco que transformaria para sempre a dimensão do espetáculo.

Mesmo diante de todas as mudanças, uma coisa permaneceu intacta: a paixão.

Paixão que o levou a percorrer as ruas divulgando uma simples toada. Paixão que o fez defender o Garantido por décadas. Paixão que ajudou a construir a identidade de um povo que encontra no boi-bumbá uma expressão legítima de sua cultura.

Hoje, quando milhares de vozes cantam as toadas dentro do Bumbódromo e milhões de pessoas acompanham o Festival de Parintins pela televisão e pela internet, poucos imaginam que parte dessa grandiosa história começou com um jovem comunicador percorrendo as ruas da ilha, anunciando orgulhosamente uma música gravada em disco.

Mais do que um apresentador, Paulinho Faria tornou-se um símbolo. Uma voz que atravessou gerações. Uma voz que ajudou a contar a história de Parintins. E que, de certa forma, continua ecoando toda vez que o coração da Amazônia bate mais forte ao som dos tambores de Garantido e Caprichoso.

Texto: Rubens Alves

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